23.9.04

No elevador

Por volta das 20h00 de uma segunda-feira, dia 06/09, véspera de feriado, não houve qualquer constrangimento no mundo.

Todo ele estava concentrado em um único lugar, na cidade de Santos - SP.

Feriado prolongado. A idéia de uma viagem pro Rio de Janeiro foi por água abaixo porque agora eu trabalho nos finais de semana e feriados. Aí fomos pra Santos, que é logo ali, dar uma esticada na rede da casa de uma amiga.

Tudo indo bem, mas aí aquele calor e a abstinência começaram a incomodar. E junta a maresia, que eu acho que provoca coisas na gente, e já viu, né? E torce retorce e não dá mais pra segurar, explode coração.

Como na casa dos outros a gente não pode abusar, toca sair pra caçar local, arram, apropriado.

Bem, corta pro momento em que o interfone toca. Era a moça da recepção, avisando que chega, acabou.

É preciso explicar que aquele local era diferente do padrão. Era um prédio, com garagem coletiva no térreo e elevador pra te levar ao local desejado. Devia ter uns 5 ou 6 andares. E um elevador. Um.

A gente estava no segundo andar, e ao abrir a porta já tinha lá um outro casal indo embora. Aí você entra e não sabe se cumprimenta ou se olha pro chão e fica quieto. Entramos e fiquei olhando pro painel dos botões. Deu pra ler que a lotação era de 6 pessoas. Seis, aí avalie o tamanho da coisa. Quando a porta ia se fechar, eis que:

- Segura!

Mais um casal.

Agora pronto, lotação máxima, calorão e seis pessoas saciadas dividindo os mesmos, sei lá, dois metros quadrados.

A parte masculina do casal tinha uns dois metros de altura. A feminina tinha uns dois metros de quadril. Colãzinho. Cintura de 30 ou 40 centímetros. Silicone seminovo. Salto agulha. E chega de detalhes porque vai que a namorada lê isso aqui.

O cara entra no cubículo abafado falando ao celular. Antes que a porta se feche, toca outro celular. Era dele mesmo o outro celular que estava tocando.

Aí você imagine que alguém portando dois celulares já é estranho. Imagine mais, porque um sujeito de dois metros de altura portanto dois telefones acompanhado de uma moça daquelas chama muito a atenção. Mais ainda, porque o cara tentando se espremer num elevador onde não cabe mais ninguém, com aquele falso clima de camaradagem no ar ("opa, chega mais", "vê se agora deu") não é uma situação confortável, sob qualquer aspecto. Acha que acabou? E se eu disser que o cara é jogador de futebol de um conhecido clube praiano?

Só isso? Não.

Pois a pessoa do segundo celular quer saber por onde anda nosso atleta. E ele responde, primeiro repetindo a pergunta:

- Onde eu estou? Tô passeando.

Mas não ia ser fácil. Do outro lado da linha alguém queria mais detalhes.

- Passeando onde? Ééé... no shopping.

Cinco sorrisos amarelos surgiram. E o elevador ainda não havia saído do segundo andar!

E durante o trajeto até o térreo, que levou uma eternidade, enquanto o jogador falava ao celular, foi que o mundo ficou momentaneamente livre de todo e qualquer constrangimento.